Pensar grande é o recado diário sussurrado em nossa mente em forma de ordem irrecusável. É um pesado pé nas nossas costas, empurrando e empurrando sem aliviar a pressão.
Esse hábito contamina nossos atos e o nosso comportamento. Pensar grande é a ordem. Seja grande e forte. Passe por cima e fale mais alto.
E assim deixamos de lado as virtudes das coisas simples. O prazer de cheirar o aroma do feijão preto queimado, fugindo do fogão da vizinha. O sabor crocante do pão frances quentinho com gostosas fatias de mortadela da padaria da esquina.
Quem é que pode contar sobre a sensação anestesiante de passear pela feira semanal do bairro, proseando com os feirantes e ouvindo os ruidosos pregões das ofertas tentadoras.
As paradas para conversar com uns e outros e sempre esquecendo de comprar algum lembrete da porta da geladeira.
E só querer pensar em grandes e altos vôos e, poucas vezes, ter sucesso e se decepcionar nos ecos dos fracassos. É mais fácil e surpreendente encontrar Deus nos detalhes.
Ver felicidade no sorriso ingênuo das crianças, na eletrizante sensação de entrega de diploma de formatura de filhos ou de pais.
É mais fácil complicar do que simplificar. Praticar bem o simples nos capacita para simplificar o complexo.
É bom ouvir aquela música suave, vindo dos recantos da varanda ajardinada. Do conforto de calçar os chinelos, após um esforçado dia de trabalho.
É a sinfonia do simples, da frescura do beijo de pessoas amadas no desencontro dos lábios.
É apanhar o livro de contos e estórias que nos envolvem nos enredos e nas tramas, como se fossemos um carona invisível.
Vale repetir a imagem do Fernando Pessoa dissertando que ninguém se lembra do rio da sua aldeia. É comum citar o Rio Amazonas, o Tocantins, o São Francisco, mas nós vivemos ao lado do Rio do Vidigal: sujando-o, matando-o e tratando-o de forma inescrupulosa.
Por tudo isso vamos tecer a poesia do simples. Nada de complicar. Vamos bater palmas em festas de aniversários, dar bom dia ao sol no amanhecer e atirar milhos aos pintos e galinhas.
É chutar o “think big” e abraçar o “ ser simples “, é beijar os cabelos brancos da sua mãe.
É sonhar sem dormir, porque o sono acaba e os sonhos continuam.
Quero continuar com as minhas pequenas idéias.
Escrito em 12 de novembro de 2010
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