sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

RETRATOS EM QUADRINHOS

Naquela série estava faltando um retrato da história da família. Era o da festa de casamento dos pais.

Ninguém sabia explicar porque tinha saido do lugar.

Era hábito da família contar sua história, montando um mural com retratos de todas as datas importantes, como se fosse uma revista de retratos em quadrinhos.

Começava sempre com a ultrasonografia do bebê na barriga da mãe no mural expunha três gerações. Na primeira, cobrindo a geração dos avós, o primeiro retrato era o do batizado do Sr. Eliodoro: o patriarca do clã dos Salles de Alagoas.

Naquela época na década de 20, ainda não tinham inventado essa bossa de fotografar o sexo do bebê antes de nascer. E assim o mural começou a ser preenchido com a fotografia do batizado do primogênito. Já estavam na terceira geração: avós, pais e, a última incompleta, dos filhos, netos e bisnetos.

Se via fotos de nascimentos, de batizados, em poses divertidas, fotos recreativas, de todos os modos, contando a história de todos os personagens, através do tempo. Por curiosidade, apresentava fotos com o Grande Otelo, Pelé e com Zeca Pagodinho e muitas outras figuras ilustres e menos ilustres. As que mais admiro são as fotos de formaturas, pois registram os passos mais importantes das nossas trajetórias na vida.

O mural que era mais parecido com uma galeria, ficava instalado no corredor de entrada da casa, que funcionava como uma recepção histórica da família.

A primeira cortesia era programar um “tour” das visitas pelo mural dos retratos, apresentando os acontecimentos importantes na história da família.

Quando começava a conversa o visitante já tinha um panorama geral da família e do seu currículo temporal. Os últimos retratos, além de fazer parte do mural, também posavam como descanso nas telas dos computadores, enviados pelo Google ou outra forma virtual pela internet.

Cobre desde a década de 20 até o século 21, só expondo as datas e eventos festivos, alegres e positivos. Não há nenhuma foto de velório, embora tenhamos alguns na memória.

Todas as famílias tem álbum de fotos que, as vezes, mostram para lembrar histórias.





Você tem muitas maneiras de olhar um retrato. Pode-se andar pelos retratos memorizando o correr do tempo, da fotografia da formatura com todo o grupo até a fotografia do passeio marítimo para ver o show do Roberto Carlos.

Você pode fixar o olhar no retrato e jogar o anzol da memória e percorrer os acontecimentos do momento fotografado. Por onde andava, quais eram os planos acalentados, o grupo de amizade, os livros que lia, as músicas que ouvia e a moda que usava. Era o modo profundo de olhar. Se você emparelhar, lado a lado, todos os olhares profundos de uma série de retratos, você terá em três dimensões a novela da sua vida, podendo como um bom autor entrelaçar os enredos da sua vida.

Hoje, empresas de eventos, já patrocinam o registro da história familiar, apresentando em vídeos a trajetória de entes queridos em todas as passagens da vida, atualizando-os anualmente.

Todas as famílias deveriam ter seus murais. Seria muito salutar para o espírito, repassar permanentemente a sua história, lembrando as pessoas queridas e os grandes momentos da vida.

Mas, na coleção toda, estava faltando a foto do casamento dos pais. Das bodas de prata havia até um grande estandarte pintado pelo Naval.

Para eliminar essa lamentável lacuna, resolveu-se reproduzir a foto do casamento com os mesmos personagens familiares que se prontificaram a participar do replay. Só que agora as máquinas fotográficas eram de celulares moderníssimos.

E com isso, reinauguramos o mural com nova foto do casamento com todos felizes.

Esse conto é para ilustrar formas de união e histórias em quadrinhos de felicidade em gerações de uma família em suas séries de vida.

Organize os seus retratos em quadrinhos, para reesquentar a memória de tempos em tempos.

Escrito em 14 de novembro de 2010.

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