Plinio Sales
Coisa simples ter um quintal.
Sempre nas laterais ou no fundo das casas. Eu tenho um quintal e ele me tem. Somos siameses. Nele já enterrei muitas idéias frustadas, embora cansativamente elaboradas com muita esperança no futuro do passado. Já era, foi enterrado sem velório, sem nada. O meu quintal é o cemitério de tudo que pude fazer e dos meus fracassos.
Não cabe falar de amores perdidos, porque só se perde amores até casar com o selo malígno do “Até que a morte vos separe”. Isso não é certo, a morte vos separe é horroroso. Por que não “Viva a vida sem fim por todos os tempos, enquanto forem felizes”. A morte só existe na cabeça dos que morreram e vivem a vida dos mortos: Vamos dançar a marcha fúnebre ou o comentário de um coveiro para outro, ao ver uma caveira passar “ Que tíbias!”
O meu quintal possue outras qualidades, por exemplo:
1 – Reflete os raios do sol que nele pousam;
2 – É a plataforma de apoio da minha visão marítima no horizonte;
3 - É o berço da amendoeira, das plantas da vovó Iolanda, que as cuida com muito carinho;
4 – É o campo de batalha da dengue, onde diariamente se expulsa os mosquitos, quer dengosos ou apenas os que cantam nos nossos ouvidos;
5 – O meu quintal ampara redes para ler, meditar e até dormir sonos lentos com sonhos ligeiros;
6 – No meu quintal, guardo com respeito e lealdade os meus cachorros, sem saber se eles me amam até que a morte nos separe;
7 – O meu quintal é um mundo de aventuras: Tem Gulliver, o Homem Aranha, salta Super-Homem e o Fantasma com seu cavalo do qual não lembro mais o nome. O meu quintal é o mundo dos meus sonhos.
Vou parar no número 7 porque o Carlos, acha que é o ponto da sorte ! Arre meu Pai Joaquim da Guiné.
Só sabe o valor de um quintal, quem o perde para morar na Vieira Souto, quando fica rico. Mudam todos os hábitos, vira poderoso, olha pro mar, se torna lugar comum.
Nada mais é um número a mais na multidão, vigiado pela Receita Federal, que o quer pegar para exemplificar os sonegadores dos recursos para financiar o desperdício dos Governos de todos, as vezes até mesmo do novo cidadão, bode espiatório do Marx em Minha Luta.
Apagar dessa importância, ninguém pergunta onde está o meu quintal. Mesmo assim eu digo: fica em frente ao Vidigal, vista magnífica do mar, próximo ao Hotel Sheraton, por onde passeio todas as madrugadas e escrevo esses bobos artigos, sem nenhuma pretensão.
É só ir lá e ver as minhas centenárias castanheiras, provando a resistência superior dos irmãos vegetais. Quantas vezes acordo e pergunto a Castanheira, frondosa e magestosa, se devo por o pé pra fora lutar pela vida e vejo sua resposta positiva. Lembro que em certa época em que eu tinha brigado comigo mesmo, estava meio puto da vida, cheguei fora da porta, em frente a veterana castanheira e abri espreguiçadamente os braços e cumprimentei assim: “Bom dia querida Castanheira !” E ela, zangada pela falta de sol, respondeu-me solenemente – “Bom dia Viado !“, fazendo-me retornar a minha insignificância.
Jamais esqueci “Bom Dia Viado!”. Olha que eu penso que não sou.
Por que a gente é aquilo que pensa que é. E eu, certamente, penso que sou o Plinio.
Parodiando Fernando Pessoa, reclamo que ninguém pergunta onde está o meu quintal.
Rio de Janeiro, 24 de março de 2011.
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