segunda-feira, 18 de abril de 2011

O NADA INSPIRA O NADA

Plinio Sales

Como todo escritor que se preza, tem momentos que dá o branco do Alzheymer e não se consegue partir num assunto. São pensamentos que vem, idéias que chegam e, ao mesmo tempo, partem, como a canção do Milton Nascimento na estação de Minas, vendo o povo partir nos trens e outros tantos a chegar. Com eles permeiam as esperanças, as alegrias e as apreensões que fazem as calçadas da vida.

No campo do cérebro, o mesmo fenômeno acontece. De repente pega-se uma idéia fugaz pelo rabo espermatozoico. Examina-se e descarta, pois não é ideal para começar.

A propósito o que é ideal para começar.

O papel e a canetinha a Bianca me deu. Só falta uma idéia. Lembro de ter visto nos jornais da véspera um rosário de crimes de toda espécie, fruto da trinca: drogas, armas e pobreza. Começo a imaginar como é que a Dilma vai acabar com a miséria. É o mesmo que jogar fora a criança com a água da bacia. Acaba a miséria, matando os “miserables” do Victor Hugo.

Miserável é uma casta. Como na Índia. Está lá, não pode desaparecer e talvez não queira. Se fosse fácil, Deus já tinha acabado. Você pode diminuir a miséria relativa: passar de 7% para 2,5%. E aí cessa o Fundo Pétreo. Será que não há felicidade no estado da lógica que existe o miserável feliz, dizia Nelson Rodrigues. Só não é feliz quem não ri, como a história do côrno. Essa nossa pretensão de colocar iso na miséria e, de certa forma, ma espécie de racismo.

Ser ou não ser miserável, eis uma bela questão !

Para vencer a tentação da misérie é preciso ceder ao estado da miséria. Todo miserável é uma resultante do processo, é uma dívida da sociedade da qual faz parte.

O miserável não chega a ser um nada, mas inspira certas políticas.

Sugiro criar o kit-miséria, composto de: escova de dente, creme dental, pão, um copo de mocotó e uma revista de receita de doces.

Esses kits, patrocinados pelo sindicato das padarias, bares e restaurantes, poderia ser distribuidos ecumênicamente pelas igrejas, com apoio do Bispo-Senador-Crivella.

O nada inspira o nada, e como dizia Fernando Pessoa: “Há muita metafísica em não se fazer nada.”

Esta na hora de saltar na estação metrô Vidigal.

Rio de Janeiro, 8 de abril de 2011.

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