Plinio Sales
Nos anos 50 e 60 todos tinhamos como sonho de consumo um fusca. Era obedecer a lei que falava que, antes de morrer ninguém escaparia de ter um fusca e um “chifre”. Chifre no bom sentido de ser corno para toda a vida.
O fusca foi o símbolo do programa de desenvolvimentismo do JK: 50 anos em 5 ! E criou Brasília, hoje obra-prima da humanidade, fruto da inspiração de dois gênios.
Naquela época, olhar para o trânsito era ver milhares de fusquinhas misturados na massa de pessoas que vão e que vem e quase todas, guiando seu fusca refrigerado a ar.
Foi um marco da industrialização do Brasil. Gastamos todas as divisas, mas provamos ser valentes, como o fusquinha. Não importa se depois ficarmos quebrados. Deixamos de pagar aos nossos fornecedores mundiais. Ora ! Que Esperam ! O Sarney, coitado, foi quem recebeu a promissória para pagar. Não pagou e se tornou o pato político-financeiro mundial, sendo reconhecido como estadita menor do Maranhão. Se não fosse ele, seria o Tancredo Neves o pato da moratória: um dos maiores crimes do colarinho branco contra o Brasil. O tempo muda, hoje ele é o Presidente do Senado por mais 50 anos. Não há povo que aguente.
A culpa é do Juscelino, que foi traído e quase enforcado em Tiradentes-Diamantina, por querer o desenvolvimento do Brasil.
O fusca é pequeno, só cabe a família: carona não entra, mas é valente. Vem correndo pelas estradas, passando por cidades e estradas crescentes. Indiferente, o fusca lá vai vencendo as barreiras da vida.
Há ! Se meu fusca falasse. Falaria dos meus amores, das minhas dores e dos meus sorrisos e das vezes que eu enchia que quase enchia o tanque.
Se ele falasse poderia me lembrar das músicas que eu cantarolava ao volante nos 7.547 km rodados, ponto em que parei de rodar com ele e passei para Graça. Era marrom, parava onde era deixado. Em certa ocasião, viajei a São Paulo, levei a chave no bolso, e não voltei no mesmo dia, na manhã seguinte, queriam rebocar o nosso fusca-marrom que tristinho lutava pra não ser rebocado, por estacionamento irregular. Era um espetáculo, os guardas querendo levá-lo e o povo, incentivado pelos guardadores, reagindo dizendo: “O fusca é nosso ! Abaixo a ditadura !”. Isso aconteceu na esquina da Rua México com a Nilo Peçanha.
O fusca está na história do Brasil e na de todos nós, foi o símbulo do saudoso Juscelino, o pé de valsa e um dos maiores amigos da Vera Brant, minh colega de Brasília.
Neste baralho da vida juntamos: Minas, Diamantina, Juscelino, Vera Brant, Darcy Ribeiro, Sepulveda Pertence, Berta, Marina Montolli, Odette Salles, Elza Brant e outros tantos: vivos ou em espíritos que nos alegram os sonhos.
Nada que não caiba num fusca apaixonado.
Rio de Janeiro, 31 de março de 2011.
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