Plinio Sales
Disse o Fernando que falar sobre tudo é dizer tudo, é o mesmo que sintetizar o nada. Neste chego a 300 artigos em 10 meses, mantendo a média de 30 por mês. Ao começar cada artigo, se olha pra todos os lados a procura de um mote. Sobre quase tudo já foi escrito. A visão da amendoeira escoltando o mar e os navios que nele navegam: “navegar é preciso, viver não é preciso...”. Vindo do mar, ouve-se o som em curvas do movimento do mar. Em baixo dele passa um rio invisível, ondulando as curvas de níveis dos morros submersos. É o quadro do meu jardim. Tem árvores, plantas, coqueiros, palmeiras, arbustos, flores e outros parentes, escondendo lagartinhos, formigas, lagartixas, freqüentemente caçados pelo Twister, o vigilante manhoso cão-cachorro da casa.
Temas naturais, com a lua passeando em cima, se vestindo e se despindo de quarto em quarto até ficar cheia. Logo depois é rendida pelo sol crescente, atendendo o bom dia diário. O Naval, nosso pintor amigo, certamente pintaria um belo quadro, mesmo que só tivesse tinta verde, modulando as tonalidades e as sombras.
Num ambiente afetuoso desse pode-se colocar as pessoas que estão, chegam e que vão, no dia a dia, no rodo tempo, fazendo entregas da cesta alimentícia, do bujão de gás, pelo cobrador das pequenas utilidades compradas pela D. Iolanda, vigilante matrona de todos.
Externamente os vizinhos se alinham num quadrilátero: o Sheraton, à esquerda; o mar aos fundos, a Av. Niemeyer, o Vidigal e o Stella Maris nas frentes e, finalmente, a direita teremos o Vip’s e São Conrado, caminhando para a Rocinha, alvo do marketing do PAC.
As pessoas ficantes formam a unidade familiar. São 20 pessoas, incluindo o Naldo, o Argentino e a Marietta. Some-se o Twister, os sagüis, visitantes diários, atrás de comida e os passarinhos, mandando seus recados maviosos.
Essa é a matéria prima direta, está às mãos. As indiretas, vindo dos jornais, programas televisivos, revistas e e-mails de todas as ordens.
Misture-se tudo, apimente com um pouco de imaginação, evitando falar do governo (nem sempre possível) e então faça-me mais um artigo, sem muita perspectiva para o futuro.
Assim, vamos falar de tudo, sobre tudo, chegando ao nada. É difícil ter tanta inspiração, mas o dever do ofício nos dá a palavra de ordem: Vá ser gauche na vida!
Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2011
Nenhum comentário:
Postar um comentário