PASTORAL DAS MADRUGADAS
Plinio Sales
É um belo exercício de aprendizagem de cultura popular, praticar a pastoral das madrugas. Tenho notícias de que é normal encontrar jornalistas, escritores, poetas, compositores e afins, sem falar nas sociedades das moças da noite e suas circunstancias, circularem pelos bares, restaurantes, boates e outros estabelecimentos abertos à noite ao público. Até em madrugadas das feiras livres, pois começam as 3 da manha a se armarem para abrir às 6 ou 7: “vai querer freguesa, como refrão comum.”.
Mas o começo deste artigo é a Pastoral da Madrugada. Há tempos , fazia esta missão nos bares do Baixo Leme, ou na Rua Ministro Viveiros de Castro, combinando com os garçons amigos, para bonificar as meninas que não tiveram nenhum programa, dando-lhes um lanche matutino e mais alguns reais para voltar pra casa, tudo de forma incógnita, só Deus sabendo.
Hoje, longos anos depois, estou retornando o mesmo trabalho que chamo de Pastoral da Madrugada. Começa logo às duas da madrugada na comunidade do Vidigal. Ora no quiosque, em frente ao ponto das vans. Outras vezes no Sindicato do Chope no começo do Vidigal que fica aberto até as 5 horas da manhã. Neste período fiquei escutando as conversas, entre vários trabalhadores em restaurantes, bares, hotéis, boates e motoqueiros, orquestrado pelo grande contador de estórias: o Zé Pernambucano, chamado de Machado. As estórias dele já dão pra encher um livro. E se juntado aos outros, lá vem estórias de matar de rir. Hoje colhi as seguintes, sem nomear quem contou.
1. Direitos Civis da Prostituta Celina.
O Chico Contou que apresentou a prima dele, moça vindo da Paraíba, e trabalhando na Vila Mimosa, ao Zé que ficou com ela 2 semanas e depois, não agüentou, e deixou a pobre moça abandonada, com muitas contas pra pagar.
Seguiu-se o debate sobre os direitos da Celina que o Zé deveria indenizar, como se fossem previstos nas leis trabalhistas, proporcionais aos 2 meses de dedicação integral, incluindo os lucros cessantes. A fortuna chegou a um número que o Zé resolveu fugir, largando tudo, e voltar para a Usina Pirangi e voltar a cortar Canaã.
2. O Zé, lá pelas tantas, estava fazendo a apologia dos problemas, dizendo que, como garçom- atendente-gerente, adora servir ao público, de todos os tipos, inclusive bêbados. Completou dizendo que “adora enfrentar problemas”, e contou diversos que enfrentou na sua longa carreira profissional da Zona Sul do Rio de Janeiro até estar hoje no Vidigal.
E para fechar as portas do bar, lá pelas 5 da manhã, observa que já está na hora, porque o namorado da mulher dele na Rocinha já deve ter ido embora e ele poderia chegar sem susto.
3. Logo chega o Geovanni, um personagem diferente que vive na entrada do Vidigal. Educado, prestativo e quase mudo. Quando fala é articulado, mas vive como se fosse mendigo, morador de rua, carregando todos os seus pertences nas suas mochilas. Coleciona tudo que recolhe ou ganha pelas ruas. Há poucos dias usava um par de óculos elegantes, bonitos até, e uma quantidade grande de quinquilharias, penduradas no pescoço. Como dorme nas ruas, alguém roubou-lhe tudo inclusive os óculos.O Geovanni estava triste, mas demais sentido por causa da perda dos óculos que tanto amava e ai, o Zé, o Francisco, o Mãozinha, o Catito e os demais ficavam gozando o Geovanni: “cadê os seus olhos Geovanni”.
Pode não parecer engraçado, mas é preciso conhecer o Geovanni e sua saga.
4. Ouço expressões incríveis, com profunda sabedoria popular. São muitas, mas listo algumas de hoje.
a. Tomar no seu cú, pra dentro!
b. Ser enganado por um otário.
c. O banheiro está sujo e sem água.
d. Machuca o cagalhão com a mão e limpa essa porra toda.
e. A corrida do Passarela, sempre bêbado, atormentando os garçons de Copacabana, ao ameaçar quebrar o vidro do balcão.
Ai o Zé, depois de muita ameaça, grita: “quebra, filho da puta”.
5. Ouço e registro muitas estórias formidáveis. Tem a estória do Português e o Espanhol, onde um não gostava do outro. Foram parar no Distrito (14º). O que traçava uma linha vermelha no chão e avisava: se passar da linha vermelha, leva porrada. Tem muitas outras que irei contando nos artigos à fora. Se quiserem ouvir, ao vivo, procurem o Zé, irmão do Antônio, no Sindicato do Chope no Vidigal.
Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2011
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