Plinio Sales
Muitos, como eu, nunca ouviram estórias dos seus avós e pais. Não havia tempo pra isso, muito pouco para parar e, pra rezar. Os tempos eram duros. Hoje a felicidade ronda nas portas dos que podem comer, ter saúde e estudar. Só não tem se for preguiçoso. Vejo mães pobres cuidadosas, preocupadas com vacinas dos filhos e outras avenças.
O fato de não ter ouvido estórias dos avós e dos pais no passado, não mudou o destino de ninguém e aprendeu estórias ao viver sua vida severina. Os pais de hoje, contam estórias que viram e aprenderam nos gibis, nos jornais, no trabalho com os amigos, nas escolas, passando de boca em boca, por muitos ouvidos.
Todos tem um modo próprio de contar. Foge do “era uma vez...”, mas põem a sua ginga e a sua entonação. Os que sabem contar estórias são os mais ouvidos e consultados.
A mesma estória pode ter várias versões, conforme a imaginação de quem conta. Há pouco tempo no Vidigal, souberam que a galinha do Sarrafo botou um ovo na cama dele, e, ao acordar, se espantou e contou a esposa que contou ao vizinho. O pobre Sarrafo, quando voltou do trabalho, no final da tarde começou a escutar um zum, zum, zum e foi apurar o que era. Descobriu que o povo estava falando que ele chocara uma ninhada de pintinhos. Essa estória cresce, de boca em boca, de um ovo, de manhã, para pintinho ao final da tarde. Vai amarrar essa estória num galinheiro.
Vê-se que as estórias mudam de lugar, de hora, crescem e transformam os novos contadores.
Tudo é o modo de contar estórias.
Rio de Janeiro, 13 de junho de 2011
Nenhum comentário:
Postar um comentário