terça-feira, 14 de junho de 2011

O PRELÚDIO VITAL DO VELÓRIO

Plinio Sales

Entendo que os sonhos são a sublimação dos desejos censurados. É raro você identificar a origem de um sonho, que razões temos para sonhar que estamos caindo no espaço vazio ou que estamos voando. Os analistas de sonhos dizem que, nesses sonhos, estamos crescendo: nada mais sem lógica. Já sonhei eróticamente com ex-mulher, gorda e feia e até um pouco burra radical, apesar de ter méritos. Coisa totalmente sem sentido.

Um pouco antes do natal do ano passado, sonhei que estava deitado num caixão, num estado cataleptico, igual um defunto, mas via e ouvia tudo em volta no meu velório. Ao acordar, parecia estar sonhando, pude perceber o inusitado da situação. Na capela onde meu corpo estava sendo velado, havia uma luz azulada, bruxoleando, varrendo todas as direções com aquela luz celestial. Uma dezena de pessoas, reunidas em volta do caixão, faziam comentários. Pude distinguir alguns amigos mais chegados, em grupinhos, uns com o Viegas, outros com o Amilcar e o Carlos Alberto, fazendo um discurso laudatório, falando da harmonia e equilibrio da vida no ato da morte. Vi vários livros empilhados ou encalhados para distribuir, entre os convidados, como propuz na minha carta getuliana, anunciando a minha entrada na história.

É interessante descrever esse intervalo vital da morte. Alguns comentários favoráveis aos meus procedimentos em vida. O pessoal do Vidigal estava mais próximo do Plininho, conversando sobre futebol e programando um chops no Tuta. As vozes se misturavam, mas pude ouvir atentamente um pedido de uisque e outros de cafézinho. Vi a entrada de especialista em cremação, conforme preenchi o formulário da Santa Casa, ao registrar o quero ser cremado e minhas cinzas espalhadas pelo Vidigal.

O próximo defunto, no caso eu, faz reflexões sobre a vida levada e a morte deixada. Alguns choravam com sentimentos, outros nem tanto e muitos riam do fato em que o “poeta se foi” no seu último poema. A Tuquinha organizava tudo, dando ordens daqui e dali, tentando organizar a suruba de um velório.

Fui vagando de um lado ao outro, ouvindo vários comentários, até o Prof. Brennando que eu julgava morto aos 92 anos, ainda estava curvado e apoiado na sua bengala, sublinhando um pósfacio da minha história.

O Grande Finale de fechar o caixão, para escorregá-lo ao forno, estava sendo executado por mãos firmes e habilidosas.

No exato momento de enfrentar o calor, ouvi o Tilimtim da Globo e aí acordei, deitado no sofá ao lado do Twister.


Rio de Janeiro, 31 de maio de 2011

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