terça-feira, 17 de maio de 2011

ACENDER UMA VELA NA ESCURIDÃO

Plinio Sales

Fecho os olhos e caminho tateando nas paredes, como se nada visse, como se faltasse o sentido da visão.

Vou tentando e aos poucos identificando onde estão as coisas básicas. Começo tateando as portas, reconhecendo os lugares onde passar. Tateio as maçanetas, pulando os pequenos obstáculos que a Iolanda põe para conter as baratas e as lagartixas, fora do seu quarto. Ela nunca teve medo de Homem nu, mas tem pavor de barata que nenhum mal fazem a ninguém. Porquê as mulheres têm medo de baratas?

O transformador estourou por conta de uma sobrecarga. A expectativa é que demore umas duas a três horas para voltar a iluminar a comunidade com 50.000 lares do Vidigal.

Até lá, sou como cego que vai passando e fazendo as coisas que todo dia faz, nem precisa acender vela.

Aguça os outros sentidos. Ouço o bate bate da chuva no chão, molhando as plantas que estão vicejando no quintal, esnopando as amendoreiras e suas colegas. Todas, quase orando, sorvendo as gotas molhadas sobre elas banhando.

O murmurrar nas pedras do mar, atira pra longe, os pescadores valentes buscando o alimento do dia nas suas frágeis varas de pescar, usando algum tipo de isca para trapaceiar os peixes. Sera mais difícil, mas voltara com a cesta básica marina, numa base de 0800, driblando a miséria da Dilma. Se todos soubessem pescar, ou plantar, ou colher frutos das árvores e até caçar algum animal-irmão, a miséria seria de outra natureza.

Acho o lápis e ajusto o papel para escrever uma conversa escrita. Ainda bem que o escuro não é de nascença. Dá pra escrever a luz de velas. A cabeça esta clara, contornando as colinas do Alzheymer, e deixando de lado os esquecidos nomes pouco usados.

Lembrei-me agora do nome do Gerry, meu amigo londrino, que mora em Zurich, administrados de recursos árabes, anunciando que pode trazer bilhões de dólares para investir no Brasil. Exige as condições mínimas de que o projeto apresente um retorno de no mínimo a taxa de retorno de 18% ao ano para que possa satisfazer as obrigações pecuniarias dos fundos de previdência dos quais fazem parte. Além disso, que os projetos sejam fomentadores de inovações tecnológicas. Com essas duas vertentes satisfeitas, a proposta é enchaminhada ao comitê de finanças para harmonizar os cronogramas. Tudo isso sem ter luz como iluminador dos caminhos.

A falta de luz estimula os outros sentidos, orientados pela luminosa bengala.

Acender uma vela ajuda a vencer a escuridão, contudo os demais sentidos é que promovem o bom caminhar.

Bom dia Sol!


Rio de Janeiro, 11 de maio de 2011

Nenhum comentário:

Postar um comentário