terça-feira, 3 de maio de 2011

A VIDA É UMA COCADA

Plinio Sales

Vejo o Luiz fazer cocada com um exagerado cuidado. Lava o côco e depois raspa com uma faca afiada e grande, deixando o côco lizinho. Pergunto porque se o material pra fazer a cocada está dentro do côco. Diz que é tradição da Paraiba e ao raspar o côco testa se está bom ou fora do ponto.

Leva horas raspando a parte branca interna do côco que vai se acumulando num balde. Poderia contratar um auxiliar, mas não quer por achar que só ele conhece o ofício, embora na Rocinha e mesmo no Vidigal, encontramos muitos doceiros vendendo cocadas. Até no bar-merciaria do João se encontre cocada industrializada.

Depois de muito esforço de ralar-raspar, usando um raspador manual, inicia os procedimentos para fazer a mistura e chegar ao produto final. Essa parte não deixa ninguém ver: faz escondido, é a sua caixa preta da tecnologia da cocada.

Depois de pronta, transforma numa obra de arte, em pedaços retangulares, brancos ou morenos, com boa textura, granulado e belo visual: é a cocada do Luiz.

Faz mais de 500 por fornada. Vende todas rapidamente. Eu preciso de umas 20: 5 para levar pra casa, pois minha mulher e a Leize adoram. Quando vou procurar a minha, escondido da Tuquinha, já não tem mais. Gosto de levar umas 10 para o pessoal do Sheraton que apreciam bastante, sem saber de onde vem. A Bianca, também proibida, adora e não dispensa. Outras vou distribuindo ao andar nas subidas do Vidigal.

Olha que o Luiz não está sozinho, o próprio Geraldão faz propaganda da cocada de um amigo da Rocinha, mas como bom mineiro faz a propaganda, mas não traz nenhuma pra gente experimentar.

É melhor ficarmos com a cocada saborosa, muito apreciada do Luiz. Muitos acham caro cobrar 2 reais por uma cocada. O Luiz rebate, justificando o preço do côco, açucar, leite, frete e da mão de obra para quase chegar ao preço de venda de R$2,00. A mim, na surdinha, diz que a margem é boa sem revelar quanto é.

Como economista, aconselhei ao Luiz deixar de vender digamos à varejo, cachaça, vinho e outros, que têm baixa margem de lucro, embora tenham grande rotatividade, e se especializar em doceteria. Não parece nada, mas doce se vende muito. A mãe da Evelyn, loura simpática, vende uns 100 brigadeiros, por dia, só trabalhando à tarde em frente ao salão da Vera, que também adora e é freguesa dos brigadeiros.

Ora, por onde passam, centenas ou milhares, descendo ou subindo ao Vidigal, a venda é certa.

O Luiz vende 500 cocadas por dia a R$2,00 cada uma, livre de imposto, só se preocupando com o choque de ordem do Eduardo Paes. Aliás esse choque precisa refrescar seus métodos truculentos, pois o nanocomerciante que se defende, fazendo produtos caseiros, com muita higiene, para sustentar a família com as suas vendas de baixa renda. As vezes merecem um mínimo de respeito, embora isentos de tributos, todos têm mãe. O Eduardo também tem, e diga-se de passagem é uma excelente pessoa e digna esposa do Walmar Paes, meu colega do IBEF.

Mas voltemos ao Luiz, sem alertar o Leonidas do Imposto de Renda, tem uma receita só de cocada de mil reais por dia. Se a margem é de 50%, então são 15.000,00 reais por mês, comparável ao salário de um vereador. Só tem que o Luiz rala, literalmente na expressão da palavra, enquanto o Vereador rola e enrola!

Vejo que o Luiz, agora, está se transformando em dono de hospedaria, com ajuda de um padrinho, está preparando quartos para alugar, se aproveitando da forte demanda no Vidigal.

Some-se a renda do quiosque a renda da cocada, a renda dos aluguéis, e outras menos declaradas, com a expliração da mão de obra chinesa dos filhos. Só poderá resultar num capitalista odiado pelo PT e pelo Marx.

Vá Luiz, siga a ordem do Obama: “You can!”, pois a vida é uma cocada. Pra vencer tem que ralar e pode também ser doce, com a ajuda de Deus.


Rio de Janeiro, 28 de abril de 2011

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