terça-feira, 3 de maio de 2011

O BACALHAU CHEGOU E NÃO ESTAVA DOENTE

Plinio Sales

Ouvi dizer que se havia bacalhau no menu em casa de pobre, um dos dois estava doente.

Nesta quinta-feira já estavamos preparados para um suflê de bacalhau, a base do pirarucu do Mero, quando para nossa surpresa a Roberta, minha querida sobrinha, brilhante advogada, aparece para uma reunião e traz uma bela peça de bacalhau do Porto, comprada no Lidador: coisa de gente rica.

D. Iolanda, artista da cozinha, logo transformou a peça num suntuoso bacalhau ao pipo, digno da adega do Machado, lá de Lisboa.

E tem mais, não havia ninguém doente, nem nós e nem o bacalhau.

É bom acentuar esses fenômenos porque na mesa do pobre não está entrando nem carne bovina, quanto mais bacalhau igual ao da Roberta.

Nos últimos tempos, depois do plano real, sem a inflação vem mostrando seus dentes e pondo as manguinhas de fora. Por enquanto esta sobrando o frango frito, vendido pelo Tuta e o João, ambos do Vidigal, por 13,00 reais a peça polpuda, suficiente para 4 pessoas numa refeição.

Todo o cuidado é pouco, quando se trata de controlar a inflação, monstro devorador das economias das classes pobre e média.

Lembro-me que no tempo do Sarney, a inflação chegou a 80% ao mes e no final do mes o salário se reduzia a 50% do seu valor. Era preciso sair correndo para fazer compras do mes no supermercado, antes que o salário não desse para pagar.

Eu, especulador do mercado de capitais, começava o dia juntamente com o Bento, ali no Cabral 1.500, com o caixa zero, tomando Choppes, e saia no final da tarde com 100.000,00 no bolso, tudo por conta dos juros do dia, em operações “daytrade”, comprando e vendendo no mesmo dia, ganhando em cima da inflação. Bendito Sarney!

E os pobres que não podiam se defender, ora ficavam mais pobres. Como ensinava o economista Ragnar Nursey “A pobreza gera a pobreza – é o círculo vicioso da pobreza.

O plano real do Itamar-Cardoso teve o mérito de tirar o pobre da pobreza. Se essa política monetária da dupla Mantega-Trombini não se harmonizar, a inflação voltara para tornar o sonho impossível do pobre virar pesadelo!

E aí não haverá bacalhau, nem pro remediado, e todos estaremos doentes!


Rio de Janeiro, 26 de abril de 2011

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