Plinio Sales
Classifico-me como sobrevivente da mortalidade infantil. Na decada em que nasci, as condições sanitárias eram precárias. Vivia a beira do Rio São Francisco, numa pequena cidade de Alagoas, registrado como Piassabussu- de origem indígena. As estatísticas da época revelavam que, de cada 10 crianças, oito morriam nos primeiros 3 anos. Grassavam todas as doenças infantis, até barriga d’água, verminoses de todas as espécies, disinteria, raquitismo e outras que corroiam as entranhas e a vida dos meninos.
Por isso, sou sobrevivente da mortalidade infantil por pura sorte!
Mas de lá pra cá, emora a população tenha pulado de 40 para 180 milhões, houve uma acentuada melhoria no cuidado com a saúde pública: periodicamente o Governo lança campanhas de vacinas, estabelece tratamentos preventivos, cuida da saúde bucal, regula exames e tratamentos de doenças edêmicas e epidêmicas, enfim, há em marcha uma política pública de saúde. Essa é uma das obrigações constitucionais do Estado, como legítimo representante da sociedade.
Apesar dessa vitoriosa performance, estamos longe do famoso “bem estar social”. Ainda falta muito, estamos no começo do princípio.
Por obra e graças da Andreza, futura médica e minha 7ª filha, comecei a fazer o vestibular da humilde vida de um paciente da saúde pública. Fui frequentar o HGGFURJ – Hospital Graffé Guinle da Universidade financeira, não dava pra bancar o tratamento médico privado, com consultas de meio salário mínimo. Na vida temos que enfrentar essas fases.
Nada a reclamar do HGGU, pois passei por todas as suas especialidades, atendido por médicos, professores e alunos, dedicados e brilhantes. Só achei mais difícil, esperar ser atendido, nas salas coletivas de espera. Gastava-se de 1 a 3 horas de espera, dependendo da especialidade. Pra fazer exame de sangue, o sacrifício e acordar 5 horas da manhã pra poder chegar antes das 7, para pegar uma ficha até o número 40. Se não volta amanha. Fora isso, o resto, com paciencia, se faz tudo.
O interessante é que nessas salas de espera, você toma conhecimento de muitas estórias: “meu pai aos 80 anos casou com uma senhora idosa cega...”, “minha filha vai pra balada e deixa os filhos pra que eu tome conta”, “o jogo de buraco de ontem, estava muito chato, minha sogra não soltava as cartas e perdíamos muitos pontos”, e muitas outras interessantes estórias, até de médicos e doenças.
Tudo faz parte do show.
Devemos ressaltar que o serviço público de saúde melhorou, não resta dúvida, mas como um grande iceberg precisa melhorar a parte submersa. Talvez seja interessante. Dividir o SUS em unidades regionais, com gerências autônomas, com vida financeira e administrativa própria, ou semi-privatizar os serviços de saúde pública. É inconcebível frequentar filas homéricas, cansando doentes e idosos, sem o menor sentido. Apesar da boa vontade do servidor público, ele pensa que é o Senhor dos Serviços e o cidadão é um mero freguês. É preciso fazer uma lavagem cerebral, para que o servidor público se transforme no cidadão-servidor do povo que lhe paga o salário.
O quadro não é tão aterrador quanto mancheteia a imprensa do terror. Contudo é necessário das um melhor tratamento a todo o sistema, pois o povo é o senhor e com ele nada nos faltará.
Chamem o Serra para tratar do assunto.
Rio de Janeiro, 25 de abril de 2011
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