Plinio Sales
Lembro do meu sábio avô ensinando que nunca devemos fechar portas, estejam elas onde estiver. Algo parecido com o conselho da vovó ao recomendar: não cuspa no prato onde comeu!
Em épocas passadas, no transito do Regime-Militar, por ser diretor do Diretório Acadêmico da Universidade, fui chamado para explicar a existência de livros russos de economia na biblioteca do Diretório. Enquanto nada se esclarecia, fiquei preso a semana incomunicável. Até aí nada de mais, não havia tortura, apenas privação de liberdade. Logo que um Tenente mais esclarecido me reconheceu fui solto imediatamente com pedidos de desculpas. Foi pior na inquisição. Lá queimaram os livros e, junto, literatos foram servir de combustível para acelerar o fogo. As consequencias é que foram brabas. Pelo fato de ficar incomunicável, guardado em celas fechadas com pouca luz, aquiri o trauma de portas fechadas. Chego a ter pánico se me vejo em ambientes fechados.
Onde chego, abro portas e janelas, enquanto outros tem o vício de manter sempre fechadas, com inúmeras desculpas esfarrapatas: para não entrar o vento, nem o frio; a poeira também ou a claridade.
Mas não foi isso o sentido do conselho do vovô. Ele quis dizer que no decorrer da sua vida, evite ações que possam fechar portas para você voltar no futuro. Por exemplo, voltar para o emprego do qual saiu amistosamente; reconquistar a namorada que deixou saudades; voltar a velha boemia como a canção do Nelson Gonçalves: “O Boêmio voltou. Saiu daqui tão contente e agora quer voltar”. Se a porta estivesse fechada, seria negado o seu direito de voltar.
Esse conselho é sábio, como a maioria são boas regras de comportamento, inclusive “não cuspa no prato em que comeu”.
Apesar de se dizer que se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia”.
Vale ser libertado e sempre deixar as portas abertas, porque nelas não há trancas, é o templo de Jesus.
Rio de Janeiro, 25 de maio de 2011
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