Plinio Sales
Faz parte da minha estratégia pessoal, por gratidão ao passado, dar presentes regularmente. Sempre tenho alguns à mão para dar aos meus semelhantes: parentes, amigos, clientes, prestadores de serviços e outros. Lembro-me agora que tenho esquecido do carteiro, do ledor do relógio da light, do lixeiro e outros que aparecem no final do ano, esquecidos por falta de planejamento.
Na tribo de onde meu pai saiu, se tinha o hábito de dar presente a visita que viesse à primeira vez na sua casa, em homenagem ao ato de apoio e amizade a nossos propósitos. E sigo essa tradição, sempre que posso. A respeito disso tenho alguns fatos interessantes para contar:
1) O presente da anti-loura
Com o princípio da 1ª visita, dei ao João um lindo quadro, pintado pelo Wladimir, apresentando 3 graças negras. No quadro haviam a beleza de 3 princesas negras, contratadas em Angola, a preço de petróleo, para posarem no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio, que durante um dia inteiro pousaram com a melhor boa vontade. Uma delas tem a bunda mais bonita que ja vi nessa minha vida com 50 anos de Lapa. Para minha surpresa, ele não deu a menor bola pro quadro, olha que ele é um negro bonito, ex-comandante de navio da marinha, viajando pelo mundo inteiro e racista. Igual ao Pelé.
Confessou que só gostava de loura, sendo que estava noiva de uma modelo-silfide, sem peito nem bunda, que era o seu sonho de consumo.
O quadro está comigo e agora para sempre.
2) O segundo caso que gostaria de contar envolve, com o devido respeito, um fato que a imprensa registrou, o Deputado-Secretário Julio Lopes e a grande estrela Ivete Sangalo.
A nota da imprensa revelou que durante um show da Ivete, que ele fazia com o brilho de sempre, no Canecão-Rio, foi avisada de que havia um presente pra ela na frente do Canecão. Foi ver e encontrou um bonito carro de passeio, lindo e aerodinâmico, com todos os predicados de um moderno pré-lançamento da Mercedes. Um presente caro. Ficou curiosa e procurou ler o bilhete que acompanhava aquele sonho. Ninguém sabe o que estava escrito, mas ela mandou devolver o presente ao Deputado Julio Lopes.
Outra estória interessante, aconteceu com o meu pintor preferido, o popular Naval. Numa recepção patrocinada por D. Iolanda, já faz tempo, em homenagem a uma autoridade de República Democrática do Congo, atendendo o pedido do Viegas, nosso amigo que tinha interesses comerciais com aquele país africano. O negão veio com a esposa, uma bela e alta francesa.
Depois de todos os rapapés, regado a uisque black label, resolvemos oferecer aos visitantes um bonito quadro do Naval, que na época estava produzindo a série Corujas em azulejos da Klabin.
Com toda solenidade, entra o Naval vestido com a sua roupa de trabalho, bastante colorida, digna de um príncipe Nago que ele sempre incorporava, trazendo na mão o troféu de uma linda coruja de olhar penetrante, a qual foi presenteada ao africano e sua esposa, reverenciando as autoridades africanas.
O visitante olhou no quadro e, para surpresa geral, encostou no canto, sem o menor agradecimento.
Procura daqui, procura de lá, o Viegas esclareceu a questão: no Congo, a coruja é considerada de mau agouro! Que sai justa. Meia hora depois, a normalidade estava refeita, sendo que o presente passou a ser um bom licor francês para degustar o bacalhau do almoço.
Tenho muitas outras estórias pra contar, mas recentemente recebi as desculpas da recusa de presentes ingênuos de agradecimento. Foi na recepção do Hotel 5 Estrelas Sheraton do Vidigal. Como escrevo parte dos meus artigos no loby do Hotel Sheraton, que fica bem próximo da minha casa, em geral, entre 4 e 5 horas da manhã de todos os dias, onde sou alvo da melhor atenção profissional dos atendentes de plantão. E, com essa mania de dar presentes de agradecimentos, sempre levo alguma coisinha para relaxar o cansativa noite de trabalho desses eficientes servidores do Sheraton. Nada grande, nem valioso: cocada, brigadeiro, pupunhas, biscoitos, tratamento de reflexologia e similares.
Ontem fui elegantemente desaconselhado a dar presentes, porque um culpado supervisor viu nisso um vírus da corrupção própria da mente suja de alguém culpado ou contrariado por não ter saboreado uma deliciosa cocada do Luiz. Não dá pra entender, mas devemos respeitar.
Na primeira oportunidade vou falar com o Marcello, Gerente Geral do Hotel, para saber a razão da descortesia de um cliente(eu) que só fala bem dos serviços nota 10 desse hotel.
Não é competência do Hoteleiro perguntar quais são as intenções dos presentes.
Ele instalou a prática de questionar: Dá presentes por quê.
Rio de Janeiro, 16 de maio de 2011
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