Plinio Sales
Na série meus personagens inesqueciveis ja retratamos inúmeros personagens, desde professores, motorista de van, jornaleira, engraxate e outros. Todos o seu valor e suas circunstancias.
Recordo do lendário Naval, nascido Alcides Santos Coelho, lá no Pará, do qual se orgulhava muito ao se anunciar como paraense. Naval tornou-se um pintor popular, tendo pintado mais de 10.000 quadros em toda sua carreira até a sua morte aos 100 anos.
Era especialista em gifuras em movimento, como grupos de frevo, escolar de samba, sessões de umbanda. Foi recordista na pintura do rosto do Cristo, com alguns traços em poucos segundos, mostrava um deslumbrante Cristo em preto e branco, alguns até premiado nas gincanas em que participava.
Alem de pintorm era uma encantadora figura, sabendo fazer amizades em todos os segmentos sociais.
Houve uma fase em que associou-se a Klabin e depois a Cecrisa e produziu milhares de obras em azulejo, predominando as corujas, tão espalhadas no Brasil e na América do Sul.
Gostava do Carnaval, tendo deixado em seu acervo, que ficou com seus filhos Jupa e Jussara, ambos médicos, mais de 100 telas com motivos carnavalescos. Pode apresentar milhares de obras nas mãos de muitos colecionadores e dezenas de patrocinadores, dos quais vieram os recursos para sustentar a família e custear a formatura dos seus dois filhos em médicos.
Lembro-me da época em que vendia seus quadros no Pardellas, conhecida casa de “Happy Hour” de executivos do centro do Rio de Janeiro. Ficava na Rua Santa Luzia, esquina da México. Lá se reunia a nata dos empresários, advogados, economistas, funcionários públicos, que depois das 17:00 horas se reunião para seus drinks, encerrando a sessão as 20:00, procurando chegar em casa, antes das novelas.
Nesse ambiente o Naval começava na segunda-feira a vender seus quadros, estipulando seus preços de abertura. Porém, os malandros executivos deixavam para fazer seus lances no fim da tarde de sexta-feira, forçando os preços para baixo, porque o Naval não podia deixar de levar para casa, a verda do fim de semana e entregá-la todo confiate a esposa dele.
Chegava a ser covardia ver o preço de abertura desabar para 50% como oferta final. Vendia, assim mesmo, não tinha jeito. Era a cesta básica, a feira, os colégios dos meninos que estavam em jogo.
Como retratista era um fracasso embora se julgasse um gênio do traço. Quando estava reunido em grupos, em rodas de bar ou por outros motivos, sacava seu bastão de pintar, escolhia um ou uma participante e começava a pintar a pessoa, tentando imortalizá-la na tela, montada em sua prancheta de trabalho. Depois de terminar, mostrava o resultado do trabalho ao homenageado, o qual muito surpreso não se identificava no quadro, mas aceitava por cortesia.
Em paisagens, movimento, retrato do Cristo, figuras mortas, até passava com louvor. Era o popular Naval pintor do povo, com origem na Lapa do tempo de Madame Satã, o malandro guerreiro que brigava com a polícia.
Jamais acreditou que os homens pisaram na Lua. Tinha suas tendências umbandistas, pintando seus Orixás e, inspirado por eles, jogava seu buzios e manibrava o seu pêndulo máximo, o qual estimulava a fazer previsões para o futuro. No fundo era um manipulador da crendice humana. Para esse lado, tinha uma clientela seleta.
Ao se aproximar dos 99 anos, um medium-médico Kardecista, chamou-me de lado e avisou-me que ele iria desencarnar em breves dias. Esticou até os 100 anos e, no hospital da posse, dirigido por seu filho Jupa partiu para outras lutas impossíveis.
Há pouco tempo, resolvemos “in memorian” homenageá-lo ao criarmos uma empresa com a denominação de Naval Petróleo do Congo Ltda, para como diz o nome explorar petróleo no Congo. Em seu nome vamos dirigir uma participação a obras sociais em seu nome.
O Naval começou na Galeria Pardellas e com muito esforço e humildade, fantasiado de Metre Naso, desfilou em muitos carnavais.
Está aí a sua obra para perpetuar a sua pintura popular.
Rio de Janeiro, 03 de maio de 2011
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