sexta-feira, 6 de maio de 2011

CARTA AOS MORTOS

Plinio Sales

Essa mania de ficar lembrando pessoas que já morreram, não é o meu forte. Evito ir a cemitérios, velórios ou hospital. Gosto das pessoas, vivas em pé, nas pessoas.

Nunca seria um maquiador de defuntos. Ao ver um morto, sempre pergunto pra onde foi tudo aquilo que estava dentro da cabeça dele, porque pensamentos vivos não se apagam, só se for por conta do Alzheymer. Aí, recordo Lavoisier ao afirmar que neste mundo “nada se cria, nada morre, tudo se transforma.”

Não professo certa religião, pouco entendo do Kardecismo, adoro o batuque da umbanda, mas era católico, por causa da minha mãe, que também era por causa da velhas tias de Pedra do Belmiro, lá de Alagoas – Terra do Collor.

Prefiro aceitar a tese do Lavoisier, entendendo que, todos nós, ao apagar a última chama do corpo, tudo que está na mente sai e ingressa no Eter das energias. Tudo se transforma: a energia material vira energia espiritual. Nesse aspecto sou Kardecista, porém nada incorpora, não há corpo, só energia do mar de energia.

Portanto, os mortos estão vivos. Basta inventariar as obras que deixaram. Todas com as suas próprias vidas.

Comecemos pelos mais óbvios: os filhos, os netos e outros sucessores. Me olho no espelho e, a cada novo dia, reconheço a fisionomia do meu pai. É a transmutação.

Cada um tem uma obra deixada: o fervor por seu time, os seus livros, suas histórias, as suas idéias, os seus ensinamentos, o seu modo de vida, seu gosto pelo cinema e pelo teatro, o bate papo na esquina, os delírios dos chopps com tira-gosto, a mania de jogar futebol com os amigos no Aterro aos sábados, a mania de jogar buraco sem aceitar perder, o vício condenado do cigarro e outras inúmeras manias.

Esse conjunto de coisas perpetuam e constroem o retrato que fica e continua conosco, na nossa vida, perto de nós e nos nossos pensamentos.

Alguns chamam de arcanjos e outros de anjos que nos protegem. No fundo de tudo, entendo que acontece o mesmo que acontece com o Universo que infinitamente cresce e se espande, mudando apenas a forma de ser.

A carta aos mortos jamais será entregue porque o destinatário não existe. Voltará com o carimbo do Sedex que o destinatário não foi encontrado.

Vamos cultuar os vivos e suas obras e manter nossos mortos bem vivos nos nossos corações.


Rio de Janeiro, 06 de maio de 2011

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